Sobre
O barco e o início
Em 1982, aos dezoito anos, saí de casa em Icaraí e fui morar em Salvador. Fiquei a bordo do Golden Harvest, um veleiro de madeira em reforma na Baía de Itapagipe, em frente à favela do Lobato. Não havia eletricidade para tocar máquinas. Desde o primeiro dia trabalhei na carpintaria naval apenas com ferramentas manuais: machado, enxó, trado, formões e martelo.
Tudo começou por acaso. Descobri meu amor pelo trabalho físico pesado e pela madeira, um ofício que me acompanha há mais de quarenta anos.
Deixei a Bahia após dezoito meses. Voltei para o Rio pelo mar no veleiro Spaciba, navegando devagar pela costa brasileira.
Origem e família
Nasci no Rio de Janeiro em 6 de maio de 1963. Cresci entre a Urca, Laranjeiras e Santa Teresa em uma casa bilíngue onde português e inglês sempre foram naturais. Minha mãe, Jeremy Eleanor Pollock, era americana. Meu pai, Orlando Luiz de Souza Costa, era escultor e designer brasileiro.
A arte estava por toda parte. Havia na casa pinturas e gravuras de meu avô materno, o pintor americano Charles Pollock, e chegavam notícias de seu irmão Jackson Pollock, meu tio-avô. Dos nove aos quinze anos morei em Los Angeles antes de voltar ao Brasil.
Carpintaria e viagens
No Rio de Janeiro dos anos 1980, estudei litogravura no Parque Lage, ensinei inglês no Centro e trabalhei com design gráfico em uma oficina de serigrafia. Em 1985, decidi estudar carpintaria naval na WoodenBoat School, no Maine. Como não tinha dinheiro para a passagem aérea, procurei carona na Marina da Glória. Cheguei a Nova York por mar após três meses a bordo de nove veleiros.
Em Boston, trabalhei como carpinteiro na construção civil. Para fugir do inverno, comprei uma van e atravessei o país até Monterey, na Califórnia, com uma amiga, levando minhas ferramentas e equipamento de windsurf em cima. Mais tarde cruzei o continente outra vez de moto até Sacramento e morei quase dois anos em Lahaina, no Havaí. Nos Estados Unidos, trabalhei em três ofícios: construção e reforma residencial, construção de barcos de madeira e fabricação de móveis.
A oficina na serra
Minha oficina fica na Serra da Bocaina, entre Paraty e Cunha, junto a um rio. O silêncio é o que torna o trabalho possível. Tenho a paz para trabalhar, embora isso me afaste do mercado de arte.
Faço cada peça sozinho, do início ao fim. Reutilizar madeira de barcos, móveis antigos e outros objetos é um dos pilares do meu trabalho. Meu material principal é o compensado naval, pela sua versatilidade. Também produzo minhas próprias pranchas em prensa a vácuo, alcançando uma relação entre força e leveza que a madeira maciça não permite.
A escultura móvel
As grandes peças articuladas são esculturas móveis. Elas são móveis, escultura e design ao mesmo tempo. São feitas para serem manuseadas e reorganizadas por quem as possui. "Basta um movimento e surge o novo, o inédito."
Também faço as caixas. A primeira foi uma velha caixa de bacalhau que ganhei. Observo as caixas por dias antes de trabalhar nelas. Eu as escuto.